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Assista ao filme Caburé de Sangue:

Caburé de Sangue

Curta-metragem de Caetano Dias (Brasil, 18 min). Um boiadeiro atravessa o sertão de Canudos e adentra um terreiro recôndito, onde rituais e recolhimentos desencadeiam uma virada espiritual. A partir de vestígios da Guerra de Canudos recolhidos na paisagem seca, o protagonista forja um Alfabeto Sinestésico que reescreve a memória do massacre — transformando arquivo em inscrição simbólica. Contrapondo o corpo em rito à paisagem submersa de Cocorobó, o filme culmina em uma oferenda às águas que tensiona luto, resistência e reinvenção da linguagem. A montagem privilegia duração e gesto; o som opera como matéria narrativa; a imagem traça um percurso entre o visível e o invisível, onde memória e presença se contaminam.

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Alfabeto Sinestésico Guerra de Canudos

Como Contar a um Povo Morto a sua História? Através da transcrição de livros completos, entre os quais Os Sertões, de Euclides da Cunha, e outros títulos reproduzidos com o Alfabeto Sinestésico Guerra de Canudos. Essas réplicas em escala real foram oferecidas às águas da Represa de Cocorobó.

Alfabeto Sinestésico Guerra de Canudos

Como Contar a um Povo Morto a sua História: Mapa da Fonte do Alfabeto Sinestésico Guerra de Canudos | 2016 | alfabeto criptografado, mapa de fonte | 110 × 174 cm | Desenvolvido a partir do registro fotográfico dos artefatos arqueológicos expostos no Museu Histórico de Canudos, objetos recolhidos nas margens do Açude de Cocorobó nos períodos de estiagem, o Alfabeto Sinestésico Guerra de Canudos é um sistema tipográfico cifrado que transforma vestígios materiais do massacre de 1897 em linguagem. Com esse alfabeto, foram transcritos livros que abordam a Guerra de Canudos, entre os quais Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902), A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa (1981), e A Guerra de Canudos, de Manoel Benício (1912), criptografando as versões históricas sobre o massacre e devolvendo-as ao lugar de origem: uma tiragem em procissão de barcos foi oferecida às águas que guardam a cidade destruída; outra, incorporada ao acervo do próprio Museu Histórico de Canudos.

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Rabeca

Rabeca |2013 | documentário | 71 min | Cartografia sensível de territórios culturais do interior da Bahia, Rabeca encontra em Dona Dominga da Rabeca, rabequeira da Roça Malhadinha, uma das presenças mais singulares de seu percurso. A obra estrutura-se a partir do encontro entre o músico Eder Fersant e manifestações populares que resistem no sertão: reisados, rodas de samba, rezas, danças e toques de rabeca. Recusando a lógica documental convencional, o filme propõe uma imersão poética nos gestos, sons e corpos que compõem essas práticas, revelando figuras que não são personagens ilustrativos de uma cultura popular idealizada, mas presenças complexas que carregam saberes ancestrais e modos próprios de habitar o mundo. A trilha original de Wilson Sukorski dialoga com os sons captados in loco; a fotografia de Wallace Nogueira privilegia a textura da paisagem e a presença dos corpos; a montagem de Alex Gomes articula tempos distintos: o ritual, o cotidiano, o devaneio. Rabeca não documenta: encanta.

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1978 – Cidade Submersa

1978 – Cidade Submersa (2010), vídeo de Caetano Dias com 16 minutos, opera como uma arqueologia afetiva sobre o desaparecimento da antiga Remanso, na Bahia, inundada pela construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho. Ao acompanhar o retorno de Rodolfo Lino de Souza às águas que recobriram seu território, a obra habita a ausência da cidade para investigar o impacto do projeto desenvolvimentista sobre a memória coletiva. Com fotografia de Wallace Nogueira e trilha de Wilson Sukorski, o vídeo suspende o tempo para capturar a paisagem aquática como um espaço de luto e resistência, onde a presença de pescadores e remanescentes reafirma a persistência de uma comunidade diante da violência da modernização.

Mar de Dentro (2005) | objeto | ação coletiva | Objeto resultante de ação coletiva, construído com moradores da periferia de Salvador a partir de restos de madeira, pregos e cimento.

O gesto repetido de empurrar e deixar rolar o objeto morro acima e morro abaixo compõe um movimento que alude à mitologia do cotidiano. Entre o peso da matéria e o impulso da ação, o bólido Mar de Dentro transforma o esforço físico em metáfora da resistência humana diante da necessidade de recomeçar. O corpo informe, sem lugar, inserido no concreto mundo contemporâneo da periferia, remete às construções precárias à beira de abismos urbanos. A obra opera como crítica à lógica do trabalho infinito e da precariedade estrutural que marca as periferias urbanas. O objeto quase sólido torna-se emblema do esforço coletivo que não encontra repouso, da utopia que se renova na contínua impossibilidade.

Rio Doce – Urucum sobre a Paisagem e o Corpo 2016 | fotografia | ação performática Rio Doce, Minas Gerais.

Ação performática em que o corpo se torna extensão da terra e superfície de inscrição. O gesto com o urucum — pigmento vegetal de forte carga simbólica ancestral — afirma o sentido desse elemento para ameríndios e africanos no Brasil, matrizes constitutivas da identidade brasileira, em diálogo como elemento de presença e resistência frente à cultura eurocêntrica. A paisagem e o corpo confundem-se, compondo uma escritura viva do sentido e da memória. O urucum, utilizado historicamente por povos indígenas como proteção e elemento de ligação ritual, retorna aqui como marca de ancestralidade e território. A fotografia documenta o instante em que corpo e terra se tornam indistinguíveis, propondo uma poética da imersão e do pertencimento. A escolha do Rio Doce como espaço para o ritual é uma demarcação de território sagrado. O corpo marcado com urucum emerge da barragem rompida como afirmação de que é preciso resistir ao apagamento — gesto de reconexão com as raízes ancestrais que luta contra as tentativas de suprimir o mundo.

Canto Doce: Pequeno Labirinto | 2004 | açúcar fundido | instalação | Entre o doce e o amargo, o açúcar se faz espelho de um país erguido sobre o suor e a dor.

Canto Doce: Pequeno Labirinto emerge dessa tensão: matéria viva que funde prazer e ruína. O açúcar, aqui, deixa de ser substância para se tornar linguagem translúcida, frágil, efêmera. Instalada na Estação Ferroviária da Calçada, em Salvador, ponto de travessia entre a periferia e o centro, a obra ergue muros de açúcar que alteram docemente o trajeto dos corpos. O fluxo cotidiano se dobra ao encanto da matéria, e o olhar, acostumado ao desgaste da paisagem urbana, é convocado a outro tempo: mais lento, mais lúdico, talvez mais próximo do devaneio. A obra propõe um desvio poético. Não busca restaurar um passado mítico, mas abrir fendas no presente, permitindo que a banalidade volte a conter um gesto de encantamento. No labirinto translúcido, o visitante é conduzido à percepção de que a arte pode reverter, ainda que por instantes, a apatia cotidiana. Sob a superfície cristalina do açúcar repousa, contudo, o peso da história. A doçura do Brasil colonial foi moldada sobre o sofrimento de corpos arrancados da África. Nos engenhos, o brilho da cana escondia a violência do corte. Canto Doce não ilustra esse passado: evoca-o no silêncio das formas, no derretimento lento que devolve à terra o que dela foi extraído. O açúcar, matéria de economia e dominação, reaparece como gesto de inversão: o que antes aprisionava, agora dissolve; o que sustentava impérios, agora se desfaz em pó.

Continuo minha autofagia

para depois, e sobre as minhas próprias cinzas

ficar a fazer ventania.

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